Das separações

Hoje, dia 23 de abril, dia de São Jorge, completam-se exatos seis anos desde que meu sogro, o avô da Marina por parte de pai, faleceu. Eu já namorava o Luiz há uns três anos e foi um momento muito delicado. Eu nunca havia passado por nada parecido.

Recapitulando a história, eu não tinha, assim, muita intimidade com ele. Era eu lá e ele cá. Eu era tímida, tinha muita, muita vergonha. E ele também era um pouco fechado comigo. Era como se eu estivesse roubando o companheiro de domingo dele – aquele que assistia futebol com ele das 8h da manhã às 23h. No entanto, era engraçado, porque eu sentia que ele se preocupava comigo e eu também me preocupava com ele. De algum jeito, sem trocar mais do que meia dúzia de palavras, no meio de toda aquela falta de assunto, sabíamos que tínhamos algo em comum: nutríamos (e ainda nutrimos) um grande amor pela mesma pessoa.

Nesse aniversário de morte, fiquei me lembrando de como tudo foi difícil. Como foi um período negro para aquela família em que eu estava começando a entrar. E como eu não sabia o que fazer, nem como agir. Como cada um reagia à dor de um jeito diferente. Arrisco a dizer que foram os piores meses (ou até os piores anos) da vida do Luiz. Eu queria ajuda-lo, mas não tinha ideia de como. No desespero, até acabei atrapalhando. Nunca tinha visto ele daquele jeito e não consigo imaginar como é sentir um golpe desses. Cruel. Inesperado. Dolorido até dizer chega.

E também, por causa da mesma data, fiquei pensando em algo que sei que o Luiz deve pensar todos os dias: como seria se a Marina tivesse conhecido esse avô? Como ele seria com ela? Como ela seria com ele? O que eles poderiam fazer juntos? Quantas risadas, quantos sorrisos, quantos momentos seriam diferentes se esses caminhos tivessem se cruzado? Mas, por algum motivo desconhecido, isso não aconteceu e eles foram separados por um espaço de pouco mais de cinco anos.

Uma semana antes de saber que estava grávida, eu também perdi a minha avó paterna, outra figura inesquecível. Engraçada, cheia de vida e de personalidade, ela sempre ficava perguntando para mim, para a minha irmã e para os meus primos, quem seria o primeiro a dar um bisneto para ela. Fui eu, vó. E foi por pouco que você não a segurou nos braços. E agora você tem outro bisneto a caminho – não, gente, eu não estou grávida de novo: meu primo é que será pai em um mês, mais ou menos.

Isso sem falar nos meus avós maternos e em mais um bocado de gente boa que se foi, antes da Marina vir.

E tudo isso para dizer, em um pensamento meio sem sentido, meio sem resposta, que acho muito esquisito esse tempo. Por que alguns caminhos se cruzam e outros não? Por que essas pessoas, que queríamos tanto que a Marina conhecesse, já não estão mais aqui? Não tem explicação. Acho que é a vida e a morte são assim. Do mesmo jeito que lutamos por nascimentos encarados com naturalidade, deveríamos nos esforçar para ver a morte também como um processo normal. Mas é tão mais difícil…

Complicado pensar que essas pessoas, tão especiais para minha formação e para a formação do Luiz, não estarão aqui para ver nossa filha, o fruto da nossa união, crescer. Complicado pensar que ela vai conhecê-los somente pelas histórias (infinitas!) que contaremos a ela repetidas vezes e pelas fotografias. Complicado pensar que um dia ela também vai perguntar sobre a morte e também vai encara-la. Complicado pensar em como nós mesmos ainda a enfrentaremos por algumas ocasiões, até que chegue a nossa vez.

Mas quem disse que seria fácil?

Eu mudei para sempre... você não será esquecido.

Eu mudei para sempre… você não será esquecido.

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2 opiniões sobre “Das separações

  1. Eu sei bem o quanto é difícil, e quanto essa separação faz uma falta imensa, mas assim é a vida. Tenho certeza que se a Marina tivesse conhecido o Vô Luiz, adoraria ele, e ele esse encanto de menina, mas como você mesma disse, ela vai ouvir inúmeras histórias dele, e mesmo sem a presença física vai ser mais uma fã desse cara “Massa” que foi o avô dela.

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