O dia em que eu falhei

Sim. Tenho que admitir. Eu falhei. Não, essa não é a primeira vez que fracasso. Já errei e já me arrependi e tive que dar 800 passos para trás outras vezes, por conta de ações ou decisões erradas. Essa é apenas mais uma dessas ocasiões, mas é uma falha que mudou minha vida, que ficará diferente, pelo menos por um tempo.

Vocês se lembram de quando contei, lá atrás, que voltei a trabalhar após minha licença-maternidade? Lembram-se da logística absurda que fazíamos para deixar Marina com a vovó todos os dias? Lembram-se de como eu contei que meu coração ficava em pedacinhos e de que eu procurava o caminho para me encontrar como mãe que trabalha fora? Pois foi bem aí, nesse pontinho, que eu confesso: falhei. Não dei conta de ser uma mãe que trabalha fora.

Por mais que estivesse difícil, eu sempre pensei que um dia daria certo e que eu me acostumaria. No entanto, embora soubesse que Marina estava sob cuidados mais do que especiais (obrigada vovó, obrigada vovô!), eu me sentia muito mal em não poder participar mais, em não poder fazer do meu jeito, em não poder ver cada avanço, cada careta para cada alimento novo, o despontamento de cada dentinho… Sempre gostei do que fazia profissionalmente e estava em uma redação com a equipe dos sonhos. Tinha horário para entrar e para sair. Flexibilidade quando necessário. Quem é jornalista sabe o quanto é raro tudo isso nessa carreira. Mas não estava satisfeita. Tinha um pedacinho de mim que ficava separado por cerca de 10 horas por dia. Contando que dormimos umas 6 horas, gastamos mais umas duas nas tarefas domésticas, e usando o pouco de talento que, como profissional de humanas, me resta para fazer contas, concluo que sobravam apenas 6 horas com minha pequena. Um quarto do dia. Três meses no ano. Simplesmente, não era o suficiente.

Mas como eu podia mudar isso, uma vez que não poderia me dar ao luxo de abrir mão de minha renda, que faria uma falta danada em casa? Empreender? Sim! Mas isso é algo que demoraria a dar resultados e, de novo: infelizmente, não podia me dar ao luxo de esperar. Não agora. Eis que…

TCHAN, TCHAN, TCHAN. TCHAAAAAN!

Uma amiga queridíssima me chama para fazer um trabalho e me dá a notícia do dia, do ano, da vida: ele podia ser feito no esquema home-office. Fui lá conversar com ela e topei na hora!

E cá estou eu, trabalhando em casa, ao mesmo tempo em que acompanho cada passinho da minha cria.

Vou dizer uma coisa: não é fácil. A rotina é cansativa pra caramba. Uma dupla jornada simultânea, porque não tenho ninguém em casa durante o dia para me ajudar a cuidar dela, enquanto uma tarefa urgente aparece exigindo minha atenção no e-mail. Do ponto de vista do esforço, era muito mais fácil sentar na minha cadeirinha do escritório e fazer tudo o que tinha que fazer e só depois chegar em casa e me dedicar à Marina.

Agora, preciso acordar horas antes dela (o que significa madrugar), para fazer o grosso do trabalho sem interrupções. Então, quando ela acorda, exige minha atenção total. Quer mamar, quer ficar em pé, quer brincar, quer comer, quer água, quer mexer no computador e bagunçar todos os meus textos… Estou desenvolvendo talentos de um polvo-ninja para conseguir equilibrar tudo isso. Uma batalha por minuto. E ainda é preciso dar almoço, trocar fralda, escovar dente… Tudo o que uma criança exige diariamente.

Mas toda a exaustão compensa porque agora posso ficar com ela o tempo todo, mesmo que isso signifique equilibrar mil pratinhos. Mesmo que isso signifique dividir meu cérebro em vários pedaços diferentes. Mesmo que muitas vezes seja preciso digitar um texto com a mão direita e embalar bebê com a esquerda. Mesmo que só o sling me salve nas horas difíceis. Mesmo que isso signifique passar o dia cantando a musiquinha da Dona Aranha ou da Barata que diz que tem…

Só de não perder tempo no trânsito, de não precisar passar horas longe, de poder acompanhar a alimentação e a rotina da pequena… Vejo que tudo vale a pena.

A experiência é nova, ainda estou me adaptando (o que também explica minha ausência aqui do blog, viu, gente?), me organizando, mas acho que, aos poucos, tudo vai acontecendo da melhor maneira possível. Se eu sobreviver, posto aqui como fiz para conseguir me organizar no home-office, cuidando sozinha de uma bebê.

Foi um fracasso que tem feito eu me entender melhor como uma mãe que trabalha, sim, mas em casa. E vou fazer de tudo para não falhar nessa missão também.

stay-at-home-parent

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3 opiniões sobre “O dia em que eu falhei

  1. Van adorei! Tudo oq eu mais queria era um home office! Se eu tivesse algum talento manual (artesanato etc) investiria nisso…mas nem isso sei fazer! Ele só tem 11 dias de vida, o outro ta na escola….tenho mto oq pensar em pouco tempo! (Já que financeiramente não tem como eu parar) beijos boa sorte nessa nova fase!

    • Oi, Ma!

      Obrigada pelo comentário e, mais uma vez, parabéns pelo Joaquim. Preciso conhece-lo. Aliás, preciso conhecer o João ainda! Meu Deus… Hehehe! Olha, quando eu voltei a trabalhar, eu sabia que eu tinha que arrumar um jeito de ficar mais perto da Marina, mas não tinha ideia de como isso poderia se tornar realidade. Fui indo, procurando, buscando, tentando… e uma hora deu certo. Sei que, se for para ser assim, você vai encontrar uma maneira também. E mesmo se não der para ficar em casa, tenho certeza de que você sempre vai fazer o melhor pelos seus dois pequenos, do jeito que for possível.

      Beijocas!

  2. Pingback: O nono mês da Marina | Casa, cozinha e fralda trocada

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