Desabafo: tem alguma coisa muito errada no mundo

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Isso a gente sempre soube. Estamos cansados de ver cenas horrendas, comportamentos bizarros, acontecimentos trágicos… É só ligar a televisão em um noticiário de um dia dia qualquer, em um horário qualquer.

Mas ultimamente pequenas cenas do cotidiano e sentimentos aleatórios trouxeram essa conclusão para mais perto de mim, se não para DENTRO de mim. Ou então, foi a minha percepção que aumentou. Ou eu fiquei mais sensível. Ou estou ficando velha, não sei.

Coisas que antes não me afetavam ou passavam desapercebidas pela pessoa destraída que sempre fui passaram a se destacar. Passei a prestar atenção e a me sensibilizar. Não se se tem a ver com o fato de ter virado mãe. Tem?

Tenho pensando muito na pergunta: gente, quando é que o mundo se tornou esse lugar assim tão cruel?

Outro dia fui almoçar perto do trabalho e um moço veio me pedir dinheiro para comprar um lanche. Eu não tinha nada. Tinha saído apenas com o dinheiro do almoço mesmo. Depois, vi ele pedindo restos de lanche nas outras mesas, baixinho, para que o segurança do local não o expulssse violentamente, situação humilhante pela qual deve passar diariamente. Ele caminhou para a porta do estabelecimento e só então percebi que haviam três crianças famintas, esperando com as mãozinhas para cima as sobras que o pai trouxera. Chorei. E fiquei triste por não estar com dinheiro ou cartão para comprar um pacote de arroz, de feijão, umas frutas, uma carne e sei lá mais o que para aquela família. Não resolveria todo o problema deles, mas acho que ajudaria, pelo menos por um dia. A eles e a mim. Como essas crianças, existem várias outras pelo mundo. E a culpa é de quem?

No dia seguinte, dirigindo para casa, parei num semáforo e um senhor idoso, sentado em uma cadeira de rodas, pedia dinheiro. Meu carro estava lá atrás e ele não conseguiu chegar até a minha janela. Mas quando passei por ele, vi que, em seu colo, estava um velho cachorro vira-lata, com a aparência cansada. Não sei se, como seu protetor, também tinha problemas de locomoção, mas só pelo semblante, dava para notar que nenhum dos dois tinha mais idade para aquilo. Não sei qual é a história de vida dessa pessoa. O que a fez parar ali, naquela situação. Também não sei qual é a história do cão. Mas fiquei pensando em como aqueles dois destinos se cruzaram, como os dois uniram seus cansaços e suas limitações para, humildemente, pedir uma ajuda aos motoristas naquela esquina. Por que uma pessoa ao menos aparantemente tão bacana a ponto de cuidar de um animal de rua, mesmo quase sem condições de cuidar de si mesmo, estava naquela situação? E por que gente sem o menor respeito – nem mesmo pelos seres humanos, seus iguais – está na praia, de óculos-escuros, empunhando um drinque dentro de um abacaxi com guarda-chuvinha de papel no canudinho e tudo?

Qual é o grande critério desse mundo?

Não quero aqui bancar a comunista. Muito menos a pessimista, olhando apenas o lado errado e ruim da vida. É só um momento de desabafo.

Poderia haver mais equilíbrio. Poderia haver mais justiça. Mas como?

Fico pensando em uma solução e não chego à conclusão nenhuma. Será que não existe uma maneira de fazer a roda girar, sem ser esse sistema em que para um ficar no topo, vários outros precisam se manter na base? Não sou a favor de tirar a liberdade de ninguém. Não acho que todo mundo deva seguir um padrão e ser igual. Mas também não acho que as disparidades deveriam ser tão gritantes. Mas simplesmente não sei como poderiamos fazer isso funcionar.

Só consigo pensar em um item que ajudaria a transformar essa realidade. Sem querer ser piegas, mas é o respeito pelo outro. O amor. Ser feliz e deixar ser feliz. Generosidade, pensar no outro, saber que ser legal vale a pena, compreender o outro, se colocar no lugar do outro… É a tal da empatia. Sempre é tempo de aprender tudo isso. Mas se essa base vier da infância, temos a chance  de nos tornarmos pessoas muito melhores na vida adulta. Perfeição não existe, é claro. Mas simplesmente ter consciência e TENTAR ser alguém melhor já ajuda. E muito.

Tudo isso me leva a pensar na importância de uma boa infância.  E me leva à frase do Dr. Charles Raison, que diz: “Uma geração cheia de pais profundamente amorosos transformaria o cérebro da próxima geração e, com isso, o mundo”.

Por isso, nós, pais, temos uma missão tão importante. Por isso não dá para criar os filhos de qualquer jeito, deixar chorar, levar no “jeitinho”, no “vai, que dá”. É preciso pensar. É preciso refletir: O que nossas crianças sentem? O que elas estão aprendendo? Mais do que questionar o mundo que estamos deixando para elas, precisamos nos questionar que pessoas estamos deixando para o mundo.

 

Foto: Pinterest

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6 opiniões sobre “Desabafo: tem alguma coisa muito errada no mundo

  1. Fico feliz quando leio esse tipo de coisa e sinto que tem mais gente com o mesmo sentimento que eu. Espero que a tal da EMPATIA vire moda igual o consumismo. Espero que a gente possa formar uma geração que espalhe amor.
    Que bom que pessoas como vc tem filhos. O meu lado otimista resgata uma pequena esperança na humanidade, já que o meu lado pessimista considera que ela já deu errado.

    • Didi, tomara que a empatia seja a tendência das próximas décadas. Espero MUITO poder ver uma próxima geração diferente porque hoje em dia, é cada notícia que desanima… Beijos e MUITO obrigada pelo comentário.

  2. Nossa, me coloco as mesmas questões e partilho das mesmas aflições e, especialmente depois da maternidade, sinto uma urgência e uma responsabilidade maiores. Não tenho respostas mas penso que é o momento das ações, de tentar fazer algo pelo mundo, pelos outros e pelos nossos filhos. Um abraço, Alessandra

    • Ale, é muito complicado. Acho que o que podemos fazer no momento é a nossa parte: respeitar o próximo e criar nosso filhos de maneira que aprendam o quão importante isso é.

      Beijos e obrigada pelo comentário.

  3. Pingback: Um problema que atinge 9,8 entre 10 mães que trabalham | Casa, cozinha e fralda trocada

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