Amamentação e bebida alcóolica: pode ou não pode?

Bebida-dieta

Vou confessar uma coisa: eu gosto de tomar uma cervejinha e já fiz isso, mesmo amamentando. Antes de me jogarem pedras, de me crucificarem ou de desejarem que eu bata meu dedo mindinho do pé na quina do móvel, tenham calma e leiam até o fim. Primeiramente, eu disse UMA cervejinha. Tá, às vezes duas. E não uma dúzia. Claro que quando fazia isso, ocasionalmente, me sentia muito culpada. Já tentei ordenhar o leite, para dar à Marina depois, mas o problema é que ela não aceita de jeito nenhum e só se acalma com meu peito. E eu amamentei mesmo assim, pensando tipo “Jesus, me chicoteia”. Porém, intuitivamente, sentia que estava tudo ok. Nada tinha acontecido. Minha filha não estava mal por causa do meu leite, nem sentia cólicas, nem demonstrava nada diferente. Eu não precisava me culpar tanto, mas sempre fiquei com dúvidas a respeito do assunto. Tem gente que me fala que não faz mal nenhum. Tem gente que me fala que é um horror, que eu estou matando minha filha, que o fígado dela vai se acabar, que ela vai virar uma alcoólatra no futuro.

Fui buscar informações sobre o assunto, mas não achei nada muito confiável, até que ontem, li num blog chamado Evolutionary Parenting, que respeito MUITÍSSIMO, o artigo que tentei traduzir abaixo.

O maior risco de beber e amamentar não está na quantidade de álcool no leite e sim na perda de coordenação motora da mãe, que pode impedir que ela cuide direito de seu bebê.

Bom, enfim, segue a tradução tosca do artigo – o original está aqui. Leiam e tirem suas próprias conclusões.

Ah, só para lembrar: BEBER NA GESTAÇÃO É COMPLETAMENTE DIFERENTE E MUITO MAIS PREJUDICIAL AO BEBÊ.

Amamentação e consumo de álcool

Por Jennifer Heisleman Ingalls

Amamentação e álcool… é temporada para uma bebidinha ou duas nas festas. O que uma mãe que amamenta deve fazer? Muitas mães que amamentam se perguntam se é seguro tomar uma bebida alcoólica ocasionalmente. Controvérsias e informações confusas rodeiam o assunto. Segundo a sabedoria popular, se a mãe beber, ela deve ordenhar o leite e descarta-lo antes de amamentar o bebê novamente. Ou comprar um teste de nível alcoólico. Ou então “Se você está bem o bastante para dirigir, você está bem para amamentar”. Mas o que acontece se a mãe bebeu um pouco e não se sente segura para dirigir… e o bebê acorda para mamar? É seguro? O “risco” vale a pena?

A questão da amamentação e do álcool é apenas mais uma maneira em que a díade mãe-bebê é consistentemente e insidiosamente minada ou uma “armadilha do peito”. É tão difícil saber onde buscar informação, especialmente por conselhos baseados em evidências. Parte da culpa é da nossa economia baseada no consumo, que precisa de um produto para toda situação. Nossa economia baseada no consumo fica constantemente frustrada com as mães que amamentam. Oh, meu Deus, elas produzem a comida perfeita para os próprios bebês, rápido, como podemos fazer com que elas comprem algo de que não precisam?!? Seja o conselho para ordenhar e jogar fora (o que não funciona e é um desperdício de um leite tão precioso!) ou para comprar o teste de nível alcoólico (alguém precisa tirar dinheiro das mães que amamentam de algum jeito), o resultado final é que as mulheres que cogitam tomar uma bebida alcoólica enquanto amamentam se deparam com a culpa e com a vergonha. Cada mãe que amamenta que considera tomar uma taça de vinho é igualzinha a cada uma das outras mães; elas simplesmente querem o melhor para seu bebê! Então, com toda a desinformação que rola por aí, muitas mães ou se abstém por medo ou tomam com culpa. Mas nem culpa, nem abstinência são necessárias se examinarmos a fisiologia e a farmacologia do leite materno e do metabolismo do álcool.

Olhar para a maneira como o álcool é processado pelo nosso corpo ajuda, a princípio, a ver como ele é transferido para o leite do peito. Algumas drogas e medicamentos ficam no leite até que ele seja expelido ou consumido. E é aí que o conselho de ordenhar e jogar fora faz sentido. Com o álcool não funciona dessa maneira. O álcool no sangue mantem uma proporção de 1:1 com o álcool contido no leite. Isso significa que se a quantidade de álcool no seu sangue for de 0.08 (limite legal na Califórnia), seu leite contém aproximadamente 0.08% de álcool. Apenas oito centésimos de um por cento do leite materno conteria álcool. Essa proporção de 1:1 também significa que conforme você fica mais sóbria, seu leite também fica mais “sóbrio”. O fígado está continuamente processando o álcool conforme ele filtra seu sangue e consistentemente derrubando o nível de álcool no sangue, que é espelhado pelo nível de álcool no leite. Muitas mães tomam uma ou duas taças de vinho no jantar e então ficam tão preocupadas com o álcool contido no leite, que ordenham e jogam fora, acreditando erroneamente que isso é necessário para livrar o leite do álcool. Mas o fígado já está metabolizando a quantidade de etanol do leite em uma proporção de 1:1. Então, não há a menor necessidade de ordenhar seu leite e jogar fora depois de beber ou na manhã seguinte. Nem se a mãe saiu e voltou bêbada (o que eu não estou recomendando).

Mais confusão acontece quando as pessoas confundem os números envolvidos. O teor de álcool da bebida não é igual à quantidade de álcool no sangue da mãe que a ingere. Há coisas mais complicadas para considerar, incluindo o peso, o número de doses consumidas e o ritmo de consumo.

Compare a quantidade de álcool no leite de uma mãe intoxicada no limite legal (0.08% de álcool no sangue) à quantidade de álcool de um suco de laranja que é de aproximadamente 0.09% de álcool por volume. As mães intoxicadas no limite legal terão leite com uma concentração de álcool por d que se espelha na quantidade de álcool em seu sangue, aproximadamente 0,08%. Isso significa que o leite da mãe, quando legalmente intoxicado, é menos alcoólico do que suco de laranja! E para as mães que só consomem uma dose, a quantidade de álcool no sangue (e, assim, a quantidade de álcool por volume de seu leite) é consideravelmente mais baixa do que aquela encontrada no mais inofensivo dos sucos de frutas frescas. Não posso dizer quantas vezes ouvi mães dizerem “Bem, só vou ordenhar e jogar fora por via das dúvidas…” E o excesso de cuidado é certamente compreensível. Mas na verdade se a mãe se sente confortável com uma criança ingerindo a concentração de álcool encontrada em um suco de frutas natural, por que se preocupar tanto com a concentração de álcool no leite depois de uma taça de vinho? Não é lógico.

Então, qual é o resumo aqui? É seguro tomar um drinque e amamentar. Moderação em tudo é a chave e isso não pode ser compreendido como um incentivo para as mães se intoxicarem. Mas a realidade da ciência é que mesmo quando legalmente intoxicada, a mãe só seria uma ameaça à criança pela perda das funções motoras (derrubando o bebê, rolando sobre ele, etc) e não pela quantidade de álcool em seu leite. De fato, o prejuízo motor de uma mãe intoxicada é minha maior preocupação quando as mães escolhem beber, mais do que com o risco de expor a criança a minúsculas, infinitésimas concentrações de álcool.

Se você quiser ver qual seria a concentração de álcool no seu sangue após uma taça de vinho, por favor, acesse esse link. Eu coloquei alguns dos meus números pessoais nessa calculadora para obter um exemplo real – http://oade.nd.edu/educate-yourself-alcohol/blood-alcohol-concentration/bac-calculator/

Estudo de caso pessoal: Sou uma mulher que ama tomar uma Guiness de vez em quando. Depois que o bebê vai dormir tomo uma long neck (350 ml) de Guiness e assisto a um filme. Ela acorda chorando duas horas depois. Estou segura para amamentar? Sim! Meu sangue tem apenas 0.004948576955424729%… o que é menos de cinco milésimos de um por cento de álcool. Infinitésimo. Sem ordenhar e jogar fora (o que não funciona, de qualquer maneira, porque o álcool precisa ser metabolizado para ser extinto). Sem gastar dinheiro com testes alcoólicos. Sem culpa.

Sobre a autora: Na vida real, Crunchy Mama Jenn é Jennifer Heisleman Ingalls. Uma enfermeira registrada, Jennifer obteve seu M.S.N. (Master of Science in Nursing) da Universidade de São Francisco, com uma especialização em liderança de enfermaria clínica e também tem pós-licenciatura em Oncologia. Jennifer trabalhou em pediatria, oncologia, transplante de célula-tronco, terapia de infusão, acesso vascular e mais recentemente como Professora Assistente de Enfermaria Registrada. Mas seu trabalho favorito e mais verdadeiro é como mãe de Ashlin Hope e esposa  de Kent, um oficial da Marinha Mercante.  

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8 opiniões sobre “Amamentação e bebida alcóolica: pode ou não pode?

  1. Oi Vanessa, eu bebo um vinho muito raramente. Durante a gestação e a amamentação eu não bebi, apesar de o meu médico dizer que uma tacinha vez ou outra não faria mal. Se o seu coração e instinto diziam que não estava fazendo mal, então tudo bem. Que bom que você achou a informação.
    beijos
    Chris
    Inventando com a Mamãe
    #amigacomenta

  2. Estou gestante e tomo duas vezes por semana uma taça de vinho tinto. As bebidas liberadas na gestação foram as com menor teor alcoólico duas vezes por semana (cerveja, vinho, lambrusco… Enfim, qualquer uma com no máximo com 13% de teor alcoólico). As bebidas com teor alcoólico maior foram proibidas… No máximo uma bicadinha na caipirinha do marido para não morrer de vontade.

    Gostei muito do texto e faz todo o sentido. É possível beber com moderação sem prejudicar o bebê durante a gestação e amamentação!

  3. Nossa adorei esse post, estava louca com a chegada o carnaval e a ideia de não poder provar nem um drink, agora me sinto tranquila pra curtir uma noite de animação, afinal meu bb tem 7 meses e quase não mama mais, praticamente duas vezes ao dia! E de noite não mama nada . Ufa!
    valeu muito. bjos

  4. Pingback: Por que não vou postar uma foto da minha barriga em uma campanha contra o aborto | Casa, cozinha e fralda trocada

  5. Gostei muito da matéria, a pediatra liberou que eu tomasse até três latinhas de cerveja sem problemas e meu bebê está com apenas um mês. Tanto a gestante quanto a mãe que amamenta no peito é cheia de pessoas palpitando a sua volta , e a maioria não tem nenhuma formação acadêmica para aconselhar e é incrível como essas são as que mais criticam, aprendi a seguir as informacoes das pessoas estudadas e ignorar as informações das pessoas que acham que sabem e como você falou mãe sabe e sente quando alguma coisa faz mal ao seu bebe, instinto? Não sei ! Mas que sabe, sabe!

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