É fácil não saber

apego2

Às vezes me pego pensando quão mais fácil seria o caminho da maternidade se eu fosse ignorante em certos aspectos.

Seria mais fácil se eu ignorasse a importância de um parto com toda a força da natureza. Seria mais fácil não precisar remar contra a maré em busca de um nascimento humanizado para a minha filha. Seria mais fácil poder acreditar em qualquer médico, marcar uma data conveniente e ver (ou simplesmente não ver) minha bebê chegar ao mundo em cerca de 15 minutos e já chegar até mim vestida, de banho tomado, limpinha. E achar tudo isso normal.

Seria mais fácil se eu ignorasse a importância de um vínculo, de pegar no colo, de brincar e de conversar. Assim, eu poderia, sem culpa, deixar minha bebê embalada por uma daquelas cadeirinhas vibratórias e hipnotizada pelas cores da Galinha Pintadinha o tempo todo, enquanto eu cumpriria todas as minhas outras tarefas. Não que exista algum problema em aproveitar as facilidades dos tempos modernos. Já me aproveitei muito da dona Galinha quando Marina precisou fazer inalação. Mas eu SEI que nada disso substitui o embalo do colo humano e as musiquinhas cantadas pela voz materna ou paterna.

Seria mais fácil se eu simplesmente não soubesse da importância do leite materno nos primeiros seis meses de vida da minha filha. Seria tão simples (embora, sem dúvida, fosse mais caro) abrir uma latinha de leite em pó e colocar dentro de uma mamadeira e matar sua fome, sem culpa, sem grilo, sem achar que estaria fazendo algo errado. Seria mais fácil não saber que peito não é só alimento: é vínculo, é contato, é segurança, é afeto, é aconchego, é amor. Quantas rachaduras seriam evitadas, quantos sangramentos, quantas dores, quanto cansaço, quantas vezes outras pessoas poderiam atender o chamado dela nas madrugadas e não apenas eu.

Seria mais fácil se eu achasse que os bebês já nascessem prontos e não precisassem de mais nove meses de uma gestação extrauterina, sentindo com intensidade o calor do corpo de sua mãe, a segurança, a presença e o afeto para, aí sim, começar a ter condições de desenvolver com mais independência.

Seria mais fácil matricula-la em uma escolinha de período integral e voltar a trabalhar imaginando que ela estaria tranquila, porque eu estaria pagando para outras pessoas que cuidariam dela tão bem quanto eu. Depois, seria só chegar em casa, alimentá-la com outra grande mamadeira e coloca-la em seu berço confortável e solitário.

A única coisa que não seria tão fácil seria constatar, alguns anos depois, que minha filha cresceu. Que está uma moça e que não vi nada disso de perto. Que não acompanhei, que não participei tanto quanto poderia. Que eu poderia ter feito melhor. Que eu poderia ter me doado mais para que ela tivesse vivido sua infância e não SOBREVIVIDO a ela.

Pensando bem, ainda bem que eu sei de algumas coisas e ainda bem que pretendo ainda descobrir muitas outras. Culpa e sensação de que poderia ter feito melhor? Ah, estas fazem parte do pacote completo da maternidade. Mas saber alivia. Saber cura. Posso errar, posso me arrepender, posso sentir culpa, mas nunca terei o remorso de não ter me informado, de não ter procurado saber o que é melhor para a minha filha, ainda que mesmo assim, muitas vezes, eu não saiba. Nunca terei o arrependimento de não tentar me colocar no lugar dela. De não trata-la como um brinquedo ou um objeto, mas como um ser humano, ainda que um muito pequenininho e exigente.

Quem disse que a maternidade seria um caminho fácil, estava mentindo, mas quem disse que não valia a pena viver intensamente cada momento, também estava.

apego

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6 opiniões sobre “É fácil não saber

  1. Lindo, emocionante e real.
    Seria mais fácil não gerar se não tivéssemos sentido uma alegria sublime e inexplicável ao ouvir um minúsculo coração bater. Batidas essas, que transformariam a nossa história para antes e depois deles. bjs Amei o seu blog, estou seguindo e te convido a seguir o meu tbém! Camila Vaz

  2. Que belo texto. Realmente é duro e solitário demais escolher o caminho mais difícil. Mas a consciência tranquila e a possibilidade de acompanhar o crescimento de nossos filhos vale.

  3. Mais uma vez me emocionei com suas palavras, querida Vanessa! Com certeza a maternidade não é tarefa fácil,mas é a mais sublime e vale a pena a cada segundo.
    Ás vezes tbm me pego pensando que seria mais fácil não saber e não acreditar em algumas coisas.
    Saúde e paz pra vc,sua pequena e td família!

  4. Amo seu blog…

    estou vivendo um momento delicado… nao tenho a opçao de nao voltar a trabalhar e ela terá apenas 6 meses… mas estou organizando absolutamente tudo para ela se sentir bem… pois eu SEI que ela precisa de afeto, leite materno, atenção, desenvolvimento garantido e colo e isso ela terá, muito… ela é prioridade

    bjs…

    http://docemanuella.blogspot.com.br/

  5. Texto emocionante. Tenho 1 filha. Fiz cesarea e na época, q ñ faz mto tempo, falei com o GO que queria normal. Ele falou das complicações de conseguir internação às pressas, em QQ lugar q ele ñ conhecia. Eu ñ tinha conhecimento de parto natural humanizado, a repercussao ñ era tanta como hoje ( o documentário ajudou mt). Trabalhava 15 horas por dia e ainda dirigia. Era uma gravida sonolenta, exausta, com quedas frequentes de pressão. Nao tinha ideia do q era empoderar-se. Ñ sabia mesmo, paguei alto por estação”facilidade” do ñ saber. Odiei a cesariana e me arrependo por ñ ter lutado contra maré mesmo com o risco de ñ encontrar lugar pra parir ou sofrer agressão obstétrica no SUS. Tinha medo disso, q me levou a acatar a cesárea. Sofri violência obstétrica do mesmo jeito e da pior forma possível: pois eu era aquela tola ignorante q achava q tinha q obedecer a recomendação médica. Era desprovida de reflexão. Ñ tinha lido nem na gestação a importância da AME pra mãe e BB e se ñ for exclusiva ou oferecer bicos artificiais podemos gerar desmame precoce. Apos nascimento consegui me empoderar para ser firme o suficiente e aprender sobre amamentação. Eduquei todos as minha volta q ñ queria mais da LA. Fui retirando o complemento, mamadeiras q já eram esporádicas e em paralelo conheci o GVA facebook. Ñ ofereci mais. Em paralelo sofri com fissuras, feridas, mastite, mas perseverei e amamentei. Pior foi a GO q disse q meu leite ñ descia pq já passava de 72 h pos cesárea. Tava tao estressada e tensa q demorou mais. Na maternidade particular enfermeiras rudes e que alimentavam o mito de q se eu chorasse mais o leite ñ ia descer, aí qveu chorava mesmo. Foi horrível e tudo começou com essa tal facilidade do ñ saber. Se eu tiver um 2 filho tenho fé q conseguir ei um VBAC. Obrigada por compartilhar tua experiência. Seus textos são lindos, emocionantes e sinceros.

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