A dor do parto é dura, mas…

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No início, os sintomas são sutis. A pessoa começa a respirar um pouco mais ofegante do que o normal e deixa transparecer a ansiedade pelo que está prestes a acontecer. Quem está ao redor pede calma, mas é em vão. Controlar as aceleradas batidas do coração já não é mais possível. Eis que tudo começa de fato. A pessoa se senta, atenta a todo e qualquer movimento. Ao longo do processo, o suor frio escorre pela testa. A pessoa pede água. Alguém traz, porque ela não pode, nem por um segundo, perder a concentração no que está fazendo. Suspiros profundos, olhar vidrado, foco total naquele momento. A mudança de posição é constante e tenta aliviar o desespero e a tensão. A pessoa se senta, se levanta, caminha incessantemente de um lado para o outro do ambiente, se senta no chão, fica de cócoras… Tudo é válido na intenção de minimizar o sofrimento, mas nada parece funcionar efetivamente. Os gritos não param e mudam de intensidade de acordo com cada segundo vivido nessa experiência, que parece única, apesar de tantas outras pessoas, exatamente como esta, estarem vivendo a mesma coisa, nesse exato espaço de tempo. Até o movimento de piscar os olhos é evitado. As pálpebras fechadas, ainda que por frações de segundo, podem perder detalhes importantes deste dia que, tão importante, é certamente único. Nunca mais vai voltar. Na hora da dor, os piores xingamentos e palavrões saem da boca sem passar pelo cérebro, que parece estar em outra dimensão. A impressão que se tem é de que, quando tudo isso acabar, a pessoa nem vai se lembrar de todos os gestos que fez e de todas as palavras que proferiu, não por mal, mas para tentar aliviar tanto sofrimento. A pressão aumenta a cada instante. Ainda que se espere sempre pelo melhor, até o fim, ninguém nunca sabe como aquilo vai terminar. E a situação parece ser infinita. As dores são tão grandes que tentativas de ajuda feitas por terceiros, como uma massagem, por exemplo, são brutalmente recusadas. A intenção foi boa, mas pelo contexto do momento, a suposta grosseria é perdoada. Novas posições são testadas e, no entanto, nenhuma delas é eficiente em liquidar aquele sentimento de tensão que quase rasga a pessoa ao meio. O fim se aproxima, todos sabem que se aproxima… Tantas outras histórias como esta já terminaram de maneira feliz antes, mas esta não. Esta acaba tragicamente. A pessoa chora, embora as lágrimas fiquem presas por dentro. Não. Não era trabalho de parto.

O juiz apita. Acabou o jogo. O pai da Marina vai dormir mais triste essa noite.

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12 opiniões sobre “A dor do parto é dura, mas…

  1. Vanessa, seja bondosa com seu torcedor triste. Dor de parto doi muito menos que coração corinthiano partido. Eu que o diga! E parabéns pelo blog, tá ótimo! Beijo grande

  2. hahahahahahhaha!!! ow, qdo eu vi você escrevendo ontem eu juro que pensei.. Nossa, como consegue escrever taanto no meio do caos! rs..ta explicado! me racheu aqui..

    • é que me bateu a inspiração quando vi o rapaz de cócoras, igualzinho ao que a gente aprendeu no curso de gestantes. eu não podia deixar passar.

  3. Sou uma quase mamãe, estou de 30 semanas e sou uma Corinthiana fanática!!!
    Mas na gestação fiz a escolha de não assistir aos jogos, fiquei com medo da bebê nascer hiper agitada devido aos gritos, palavrões e andanças de um lado para o outro..rs
    Amo meu time, mas fiz uma escolha super acertada. Se não ia estar inchada de tanto chorar uma hora dessas…rs
    Ótimo post!! Parabéns!!!

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