Parto humanizado em São Paulo: sim, é possível!

Imagine uma casa não muito grande, nem muito pequena, em uma rua residencial tranquila e ensolarada. O portãozinho aberto convida a entrar pelo corredor lateral, coberto por grama, com pisadas de pedra. Antes mesmo de chegar à porta, uma mistura irresistível do cheiro de chá com o cheiro de bolo no forno invade o ar. No interior, móveis simples, de madeira e até de bambu, revestidos com tecidos coloridos. Janelas grandes permitem que os raios de luz natural da manhã iluminem o ambiente com delicadeza. Sobre a mesa, um pote de biscoitos divide o espaço com uma embalagem de manteiga, com um faquinha em cima.

Agora imagine que essa casa, que não é sua, mas poderia perfeitamente ser, possa ser o primeiro lugar que seu bebê conhecerá ao vir ao mundo. E pode!

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Uma das salas de parto com banheira. Olha a luz do sol entrando e a colcha de florzinhas na cama. Muito amor.

Esta semana, fui com o Luiz conhecer a Casa Ângela, uma casa de parto que funciona aqui na Zona Sul de São Paulo. Parte integrante de uma ONG chamada Associação Comunitária Monte Azul, atende a mulheres da comunidade gratuitamente com partos humanizados, pré-natal, cursos para gestantes e consultas com pediatras para os bebês. Mães de outras regiões também procuram o local, um dos poucos da cidade onde é possível ter um parto humanizado, ou seja, um parto onde o bebê nasce com todo o respeito e a menor intervenção médica, hospitalar e mecânica possível. Nesse caso, paga-se um certo valor (flexível de acordo com as condições financeiras de cada família). E é esse dinheiro que ajuda a manter a casa, já que o governo não dá UM CENTAVO. Resumindo: quem tem condições de arcar com os custos, além de viver uma experiência de parto única e inesquecível, ajuda as famílias que não têm condições a ter acesso a essa sensação, que é um direito de todas, mas infelizmente, tem sido cada vez mais difícil de conquistar.

Antes mesmo de cogitar engravidar, pensava que era interessante a ideia de ter um filho na água. Na minha cabeça, totalmente leiga, eu associava isso a um momento mais tranquilo para mãe e filho, já que a água morna passa uma sensação de conforto e tranquilidade, e já que a gente flutua debaixo dela. Além disso, imaginva que a transição do bebê de um lugar quentinho, apertado e seguro para esse mundo tão imenso seria menos traumática se ao invés de dar de cara com luzes, equipamentos cirúrgicos de inox e um monte de pessoas desconhecidas vestidas com touquinhas azuis e luvas de látex, ele pudesse passar primeiro pela água, ainda que rapidinho.

Quando me vi esperando Marina, comecei a pesquisar sobre o parto. Me assustei com os relatos de violência obstétrica e sabia que queria um parto normal. Mas descobri que isso não seria tão fácil no cenário atual dos nascimentos no Brasil, um país onde as taxas de parto cirúrgico são absurdas. Segundo relatório da Unicef, temos a maior taxa de cesarianas do mundo. Por aqui, 52% dos bebês nascem por operações como essa, sendo que a porcentagem máxima recomendada pela Organização Mundial da Saúde é de 15%. Então, me surpreendi ao constatar que em São Paulo, grande centro econômico do país, com quase 20 milhões de habitantes, encontrar um médico ou um hospital que priorizasse o parto humanizado era o mesmo que procurar a tarracinha perdida do seu brinco no chão da Rua 25 de Março. E quando se trata da rede particular, a coisa fica mais complicada ainda.

A fachada da casa com grandes janelas

A fachada da casa com grandes janelas

O fato é que depois de muita procura descobri que há duas casas de parto na capital. Uma fica em Sapopemba, na zona leste, e é interligada ao Sistema Único de Saúde, e a outra é Casa Ângela, na zona sul. A princípio, fiquei com um pouco de medo de não ser um ambiente hospitalar, de não ter médico, de não ter UTI. E se eu não tiver passagem? E se a bebê estiver sentada? E se ela for muito grande? E se meu quadril for muito pequeno? E se eu não tiver contração? E se? E se?

Ao mesmo tempo que todas essas dúvidas martelavam na minha cabeça eu pensava: como podem haver tantos casos que impedem um parto natural, quando o nosso corpo foi projetado para isso? Não estou aqui dizendo que a cesária é uma coisa detestável, horrível e desnecessária. Não. Eu sei que a invenção da técnica é uma evolução maravilhosa da medicina e que salva muitas vidas. O problema é a banalização. Mas não vou me aprofundar nesse assunto agora. Se não, ficarei aqui por horas e horas falando sobre o assunto, tema de infinitas pesquisas minhas no Google, em blogs, em livros e vídeos nos últimos seis meses. Vamos voltar ao cenário maravilhoso da Casa Ângela.

Finalmente, fomos conhecer o lugar. Saber como funciona não custa nada não é mesmo? Pois então. Cheguei lá, me deparei com todo aquele cenário lindo e poético que descrevi no começo desse texto, e encontrei com um grupo de outras mães e pais, que também queriam conhecer o espaço.

A enfermeira obstétrica Camila (ela me pareceu uma fofa!) nos reuniu, explicou como tudo começou, disse como tudo funciona e nos guiou em um tour pela casa. Foi paixão à primeira vista.

O lugar tem salas para consultas de mamães e de bebês, tem quarto de alojamento (com bercinhos lindos de madeira), sala de emergência com incubadora para bebês (usada em casos de necessidade que, de acordo com a Camila, ainda não aconteceram por lá), uma ambulância como motorista 24 horas (à disposição para o caso de necessidade de transferência para o hospital mais próximo) e quatro quartos onde as mães podem ficar durante pré-parto, parto e pós-parto, com acompanhante.

Os quartos possuem uma cama hospitalar regulável para as mais diferentes posições, banquinhos, bolas, cavalinho (um banquinho de balanço com apoio frontal para a cabeça). A ideia é oferecer a maior liberdade possível para que a parturiente escolha a posição em que se sinta mais confortável para trazer seu herdeiro ao mundo. Dois dos quartos possuem banheiras para o caso de a mãe querer ter seu bebê na água. Há também um banheiro, com quatro chuveiros e barras de apoio para as mães que preferem aliviar a dor sob a água quente corrente. Um jardim onde elas podem caminhar enquanto esperam o aumento de dilatação….

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Camila também disse que as mães fazem, junto às enfermeiras obstétricas, um plano de parto, onde expressam tudo o que desejam para o grande momento. Na medida do possível, a equipe se esforça para tornar os desejos reais. Música, velas, incenso, fotos… Qualquer coisa (no bom senso, né, gente?) que te dê mais tranquilidade e crie um clima mais íntimo e acolhedor para aquele, que será um dos momentos mais importantes da sua vida, é bem-vinda ao ambiente.

A enfermeira também contou que os bebês nascem com o mínimo de intervenções. A equipe só “se mete na história” quando sentem que realmente é necessário. Logo após o nascimento, o bebê vai para o peito da mãe, sentir seu cheiro, seu aconchego (quase chorei nessa parte, sério). O cordão umbilical só é cortado quando para de pulsar.

Para ter seu bebê na Casa Ângela é preciso que sua gravidez seja de baixíssimo risco. Além de preencher uma ficha dizendo se você teve problemas em gestações anteriores, se tem pressão alta, diabetes, etc, etc, eles também exigem que você faça no mínimo seis consultas de pré-natal por lá, para se certificar de suas condições são favoráveis ao parto natural.

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Foi paixão à primeira vista. Saímos de lá com a certeza de que ali era o lugar certo para a Marina chegar. Tem como pensar o contrário? Tem. Sei que um monte de gente ainda vai dizer que somos loucos, irresponsáveis, onde já se viu, querer que o filho nasça sem um médico por perto…. Mas, se tudo continuar correndo tão bem como foi até agora, não vejo motivos para querer um parto de outra maneira. Até o dia D, não sabemos como as coisas acontecerão. Pode ser que nada disso dê certo e que Marina escolha ou precise nascer de outra maneira. No entanto, temos certeza de que enquanto pudermos lutaremos pelo direito de ela chegar por aqui com o máximo de dignidade, respeito, calma e tranquilidade possível. É o mínimo que um bebê merece. E encontrei tudo isso na Casa Ângela.

Alguém já teve parto lá? Adoraria saber as histórias de vocês aqui nos comentários.

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Fotos: Divulgação

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33 opiniões sobre “Parto humanizado em São Paulo: sim, é possível!

  1. Que lindo!
    Meus partos foram normais, com intervenções, em hospital. Meu obstetra é cesarista mas me apoiou na decisão do parto normal.
    Não me arrependo das intervenções… sou bem medrosa no quesito “segurança”.
    Parabens pela escolha e que a Marina chegue bem, com saúde! Que é o que realmente importa.
    beijos
    Lele

    • Oi, Lele. Tudo bem?

      É o importante é que as mulheres tenham o direito de fazer suas escolhas nessa hora. Se você se sentiu segura assim e se seus filhos nasceram com saúde e você também ficou bem, é isso o que conta.

      Obrigada pelo comentário.

      Beijos!

  2. Vanessa, sou médica ex-osbtetra e tenho acompanhado toda a questão do renascimento do parto humanizado no país, e iniciativas como essa são maravilhosas e deveriam ser copiadas. É, no meu ponto de vista, a forma mais viável de reverter os abusos que a obstetrícia atual comete com as mulheres, que por outro lado, precisam, como você, buscar informações, rever seus medos e mitos e se permitir vivenciar uma experiência linda, intensa e transformadora, que é o parto natural. beijos Flávia

    PS: ah, escrevi no meu blog algumas considerações sobre os entraves para que o parto humanizado seja uma realidade no Brasil – confira: http://www.gravidinhasemaezinhas.com/2013/03/parto-humanizado-porque-ainda-nao-e-uma.html

  3. Pena que esse tipo de lugar não esteja disponibilizados em todo o Brasil, falam de leis que obrigam os hospitais a humanizar o parto, mas na prática é bem diferente. Aqui em Blumenau tem o parto domiciliar, mas sai bem caro, pelo SUS então nem pensar, tem o perto normal com direito a humilhação no hospital( infelizmente).
    A mãe merece e tem direito a um atendimento digno nessa hora.
    Bjs
    #amigacomenta

    • Silma, essa é uma questão bem complicada mesmo. Eu levei um tempo para descobrir a Casa Ângela e, antes disso, procurei outras opções para poder tentar ter minha filha de uma maneira respeitosa à vida. Mesmo aqui em São Paulo é coisa rara. Imagino a dificuldade em cidades menores. Mas como há cada vez mais pessoas se preocupando com essa questão, ainda acredito que essa realidade pode mudar. Vamos torcer e fazer a nossa parte, não é? Obrigada pelo comentário. Beijos!

  4. Meu parto foi cesareana, pois não tive dilatação suficiente, minha barriga estava muito alta (eu cruzava as pernas até o último dia) e já tinham passado as 40 semanas, então resolvemos fazer assim que era a melhor maneira do Matheus vir ao mundo, mas eu tinha muito medo do normal, desde o começo da gravidez, parecia q eu estava adivinhando, pois se eu tentasse o normal era perigoso meu filho parar no meio do caminho, mas agora lendo tanta coisa sobre o normal, humanizado, eu quero que meu segundo filho venha de parto normal, se isto for possível! Perdi o medo! Muito obrigada!! seu blog é demais!

    • Oi, Erica. É, ainda não sei se a Marina vai concordar com a minha ideia de parto natural. Estou fazendo de tudo para que sim. Mas temos que pensar sempre na segurança e na saúde do bebê. Que a sua segunda gravidez seja ainda mais abençoada e que você consiga passar por essa experiência do parto humanizado.

      Beijos e obrigada pelo comentário.

  5. Pingback: Gravidez: expectativas X realidade | Casa, cozinha e fralda trocada

  6. Pingback: Música para a barriga | Casa, cozinha e fralda trocada

  7. Boa Noite Vanessa,
    Estou em uma duvida crueu na segunda feira faço 28 semanas até agora minha gravidez esta sendo perfeita, nada de dores, nada de medico mandar eu repousar, nem sangramentos eu tive=D Criei um grupo no facebook, e uma das mamaes postou que queria fazer um parto humanizado, na hora eu pensei : O que é isso???.
    Elas me explicaram, ja assisti varios videos e cada dia me interesso mais, hoje me deu vontade de pesquisar casas de partos, vi um que tem em Moema, mas para ser sincera tudo que você relatou me deixou mais apaixonada e querendo ter minha Nicolly assim, sem intervenção medica.
    Obrigada por postar sobre essa casa de parto…
    Me ajudou muito e creio que tbm irá ajudar outras mamaes =D
    Beijos

  8. Mas esse lugar, em Sapopemba e do SUS, não é restrito para moradores que tenham comprovante de residência das imediações de lá? Receberão pessoas de qualquer lugar da cidade? Se fosse assim, imagino a fila kilométrica na porta!
    Alguém sabe se há mais endereços assim, ou meios de conseguir um parto melhor num hospital particular?

    • Oi Tathi! Não sei direito como funciona a CP de Sapopemba, mas o mais engraçado é que a cultura cesarista está tão enraizada em nossa sociedade, que acho que seria difícil rolar fila quilométrica de mães querendo parir por lá. Beijos e obrigada pelo comentário.

      • Pois é, Vanessa, pensando assim, talvez não forme fila, rsrsrs! Mas sério, o SUS sei que exije que a pessoa more perto do local de atendimento, pedem comprovante de residência em postos de saúde sempre. Como São Paulo tem 12 milhões de habitantes, deve ter mulheres suficientes para lotar a Casa de Parto sim, só falta divulgação.
        Alguém tem o telefone de lá para pegar informações?
        Obrigada, beijos!

    • Olá meninas, eu fiz o pré natal pelo Sapopemba. é maravilhoso… Não consegui ter lá, pois não tive dilatação e já estava sem liquido. Fui encaminhada pro Vila Alpina… Perfeito, divino… Um sonho. Ambos os lugares o pai pode estar junto o tempo todo. Me surpreendi demais. Não precisa de comprovante de residência. Moro em Osasco, e fui atendida que nem uma princesa… Meu filho acabou de fazer 2 aninhos, e tenho outro encaminhado. E quero muito voltar pro Sapopemba. Mas essa “casa Angela” fica muito mais perto pra mim. Vou conhece-la tbm. Bjos.

  9. Pingback: Enxoval: do que realmente um bebê precisa? | Casa, cozinha e fralda trocada

  10. Olá meninas!! sabem dizer se na casa angela pode ir alguma pessoa além do marido??
    tenho uma bebe de 1 ano e 7 meses que nasceu de casária, e apesar do pouquíssimo tempo, Deus me presenteou mais uma vez!! estou com 9 semanas, mas o meu maior sonho é ter normal!! comecei meu pré-natal com a mesma GO que me acompanhou na primeira vez, mas tenho certeza que ela vai querer fazer outra casária!! 😥

    • Oi, Natália. Tudo bem? Quando tive minha bebê lá podia ter dois acompanhantes. Você ainda está no comecinho. Da tempo de se encher de informações e encontrar uma equipe bacana, que te ajude a ter um lindo parto. Recomendo muito que você faça uma visita a Casa Angela. Você vai se encantar! Se precisar de ajuda, de qualquer informação ou, enfim, qualquer coisa, pode entrar em contato, ok? Obrigada pela visita e pelo comentário. Bjs!

  11. Olá! Meu nome é Ulli , eu ñ tenho filho ,mais sou louca pra ter e sempre tive em mente de ganhar meu bebe em casa , nunca gostei da ideia de ter que ir ao hospital .. Sempre achei q hospital fosse lugar pra doente e não para receber uma vida indefesa de tudo !
    Então queria poder conhecer a Casa Angela e saber também como q eu faço pra poder ganhar meu bebe ai .. Logico quando eu engravidar !
    Obrigada !!

  12. Ola meninas… adorei o post, estou lendo tudo sobre essas casas de parto. Já tenho um filho de 4 anos e estou pensando em ter outro baby rss e quero muito um parto humanizado; já pesquisei muito sobre a CP Sapopemba, que todos falam bem e, vi alguém prguntando se era so quem morava perto, não é não, qq pessoa pode ter la, ou pelo SUS ou é so ir la com 37 semanas com seu pre natal particular ou do convenio que se for gravidez de baixo risco pode ter sim e de graça. Tb só ouço elogios da casa Angela e essas são minhas duas opções… MASSSSS tenho uma duvida, eu já tive uma cesárea e ouvi dizer que na CP Sapopemba eles não fazem o parto humanizado em quem teve uma cesárea previa, mas a casa Angela eu já não sei, alguém sabe? espero que sim pq só de pensar em correr o risco de oura cesárea desnecessária eu já fico arrasada. bjoss

    • Dani, infelizmente a CP Sapopemba e a Casa Angela não atendem gestantes com cesárea anterior, este infelizmente é meu caso. Não tenho condições de pagar por uma equipe médica e ter um atendimento mais humano e agora estou na busca por um hospital em que possa confiar na equipe e ter um parto humanizado…

  13. conheci a casa Ângela por uma amiga que pariu lá, mesmo antes de engravidar já tinha na cabeça que queria parir lá também. Fui essa semana visitar e fiquei com muita dúvida, não dúvida em relação a casa Ângela e sim se precisar de transferência para o hospital e não ter um médico humanizado de backup. Não terei condições de arcar com a casa Ângela + médico humanizado se precisar.

    • Oi, Alessandra. Tudo bem? Você chegou a conversar sobre isso lá na Casa Ângela? Eles são superflexíveis. De repente, também, podem te dar alguma luz sobre o que fazer… Acho que vale a pena tentar. Beijos! E obrigada pelo comentário.

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